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PODCASTS: Uma ferramenta que pode apoiar a formação de professores?

Surgidos nos anos 2000, os podcasts rapidamente se tornaram ferramentas muito populares. Em 2005 a palavra “podcast” (uma junção dos termos iPod e broadcast/transmissão em inglês) foi eleita a palavra do ano pelo New Oxford American Dictionary, sendo adicionada a esse dicionário em 2006.

Um relatório recente do Instituto Reuters e da Universidade de Oxford 1 aponta que o interesse em podcasts continua crescendo sobretudo nas faixas etárias mais jovens. No Brasil, de acordo com os resultados de 2019 da Podpesquisa 2 (cujo objetivo é traçar o perfil do ouvinte de podcasts brasileiros), a idade média de ouvintes de podcasts é 28 anos. As áreas de interesse indicadas por esses dois estudos são diversas: ambas as pesquisas identificam notícias, negócios, política, saúde e alimentação, estilo de vida e cultura como assuntos populares por quem ouve podcasts.

Mas como essa popularidade dos podcasts se insere na educação em geral e no ensino de línguas estrangeiras em particular? O número de pesquisas disponíveis sobre o uso de podcasts no ensino vem aumentando, mas essas pesquisas tendem a focar em aprendizagem dos alunos e não em aprendizagem dos professores.

Partindo das ideias que apresentamos até agora, vamos explorar a pergunta articulada no título deste artigo da seguinte forma: após esta introdução vamos definir e descrever dois conceitos-chave: podcasts e análise SWOT. Depois, vamos aplicar o modelo SWOT na análise da tecnologia “podcast” no contexto de formação de professores. Vamos ilustrar a nossa análise utilizando exemplos e resultados de pesquisas relacionados a podcasts disponíveis para a formação continuada de professores.

CONCEITOS-CHAVE

Podcasts são séries de arquivos digitais em áudio, com cada arquivo apresentando um episódio. Esses arquivos podem ser ouvidos online ou baixados antes de serem ouvidos, podendo também ser recebidos por meio de uma assinatura. Dependendo da plataforma utilizada para disseminação, os áudios que compõem podcasts podem ser acompanhados de outras mídias digitais como vídeos, arquivos em PDF, entre outros.
A análise SWOT é uma técnica que nos ajuda a pensar nos pontos fortes (Strengths, em inglês), pontos fracos (Weaknesses), oportunidades (Opportunities) e ameaças (Threats) de algo. Pontos fortes e pontos fracos são inerentes, isto é, internos àquilo que se analisa e não podem ser mudados. Oportunidades e ameaças, por outro lado, são externos àquilo que se analisa, podendo mudar diante de mudanças circunstanciais. O modelo de análise SWOT é geralmente apresentado em uma matriz, como na imagem que segue. Na imagem listamos perguntas que podemos fazer sobre cada dimensão da matriz no contexto de análise de uma tecnologia digital.


QUE VANTAGENS O USO DE PODCASTS PODE TRAZER À FORMAÇÃO CONTINUADA DE PROFESSORES?

A possibilidade de ouvir um áudio onde se quer, na hora em que se quer, dá a podcasts uma flexibilidade que outras formas de formação continuada (webinários, conferências, lives, sem falar em formatos presenciais) não têm. Essa flexibilidade é criada em parte pela característica assíncrona entre a produção do podcast e a escuta do áudio, mas também em parte pela possibilidade de se ouvir o podcast enquanto se faz outra atividade (como cozinhar, fazer ginástica, dirigir um veículo, entre outras). A pessoa que ouve controla a escuta e pode pausar e repetir quando quiser. Na pesquisa realizada por Damione Silva (2020) para examinar a percepção dos professores-ouvintes sobre o papel do podcast Papo de Educador na sua formação, cerca de 66% dos que responderam ao questionário distribuído na pesquisa disseram que ouviam o podcast ao mesmo tempo em que faziam outras tarefas.

Outra vantagem de podcasts é a possibilidade que têm de agregar outras mídias ao áudio, como elementos visuais (vídeos realizados durante as gravações do áudio, adição de arquivos suplementares ou complementares, QR codes, entre outros). A possibilidade de recursos multimodais pode levar ao desenvolvimento de múltiplas semioses, isto é, de várias formas de se fazer sentido do conteúdo dos áudios, o que por sua vez pode tornar a integração e interpretação dos conteúdos mais significativa para quem ouve.

Se isso é um atrativo para os professores mais jovens, quer dizer, os nativos digitais que se relacionam com a demanda desses multiletramentos tão bem, levanta-se aqui a pergunta: será que os professores mais velhos veriam essas possibilidades como vantagens ou como desvantagens? Isso é um ponto a ser debatido, mas a nossa posição é que continuamos a falar de uma vantagem aqui. Podcasts são uma espécie de “rádios digitais”, isto é, são uma tecnologia relativamente fácil de manipular, que não requer grandes capacitações técnicas por parte dos usuários.

De qualquer forma, esse controle na manipulação do quando, onde e quantas vezes ouvir (ou não ouvir) um podcast, um controle que é inerente ao podcast, permite ao professor-ouvinte desenvolver autonomia e protagonismo na sua formação profissional, já que pode tomar essas decisões como lhe convém. Esse argumento pode ser ilustrado por alguns depoimentos que recebemos sobre o Canal Professores Conectados, um podcast que desenvolvemos para a formação continuada de professores de língua estrangeira e que apresenta um ou dois episódios semanais de cerca de 10 minutos cada: “Tenho apreciado bastante os áudios […]. Às vezes ouço mais de uma vez, não necessariamente no mesmo dia”; “[O canal é] muito interessante, mas para mim pelo menos, só ouvir não basta. Ouço com calma, pauso e faço anotações”.

QUE DIFICULDADES EXISTEM NO USO DE PODCASTS PARA A FORMAÇÃO CONTINUADA?

Uma grande dificuldade no uso de podcasts está associada a uma característica básica do gênero textual: sua oralidade, sem presença de um apoio face a face (virtual que fosse) que possa ser usado em caso de dúvida. Isso traz questões sérias de acesso para as pessoas com alguma deficiência auditiva. De forma similar, podcasts que incluem vídeos ou outros recursos visuais impõem desafios de acesso às pessoas que têm alguma deficiência visual. Formas de contornar essas dificuldades seriam disponibilizar, junto com os arquivos principais, a transcrição do que é dito e a descrição das imagens, respectivamente.

A tecnologia em si também pode estar associada a dificuldades de acesso: para ouvir podcasts é necessário ter acesso à internet. Alguns podcasts permitem baixar os áudios para que então eles possam ser ouvidos quando se está offline.

As dificuldades acima envolvem acesso (ou melhor, limitações ao acesso) com relação aos usuários de podcasts. Isso traz uma dificuldade adicional: a coleta de feedback sobre detalhes dessas limitações, bem como sugestões para como poder superar essas dificuldades. Afinal, se uma pessoa não tem acesso a algo fica mais difícil ouvir o posicionamento dessa pessoa para que, junto com ela, se possa construir uma solução para o problema.

O que tudo isso nos leva a pensar sobre o uso de podcasts para formação continuada de professores? Evidentemente, que essas limitações precisam ser consideradas pelas equipes de produção desses podcasts, idealmente em diálogo com pessoas que têm as limitações que reduzem ou mesmo impossibilitam o acesso.

QUE OPORTUNIDADES SÃO CRIADAS COM O USO DE PODCASTS NA FORMAÇÃO CONTINUADA DOS PROFESSORES?

Com a internet, vem o fácil acesso a podcasts produzidos em todo o mundo, o que traz ao professor de língua estrangeira uma rede de informações e conhecimento imensurável. Falamos aqui, por exemplo, de TED Talks Daily (em inglês), de Débat du jour (em francês), Documentos RNE (em espanhol) ou os podcasts da Folha de São Paulo (em português). Ouvindo-se esses e tantos outros podcasts, têm-se a oportunidade de conhecer (e refletir) sobre fatos, eventos ou ideias que podem, então, ser incorporados a tópicos trabalhados em uma aula ou mesmo inspirar projetos mais longos.

Mas pode-se, também, ouvir e assinar podcasts feito especialmente para professores. E aqui as oportunidades incluem escuta de podcasts especialmente destinados a professores de línguas estrangeiras como o Canal Professores Conectados, mas também de podcasts para professores de forma mais ampla, como o Papo de Educador.

A possibilidade de agregar podcasts a outras mídias (como websites, redes sociais, arquivos com sugestões de atividades para as aulas) torna esse caleidoscópio de informações, conhecimentos e saberes ainda mais espetacular.

QUE RISCOS EXISTEM NO USO DE PODCASTS NA FORMAÇÃO CONTINUADA DE PROFESSORES?

Podcasts não podem ser vistos como a única forma utilizada em formação continuada. Eles ampliam, mas não substituem, outras formas já estabelecidas e outras que possam surgir no apoio do desenvolvimento docente.

Além disso, para de fato potencializarem a formação continuada, podcasts não podem ser percebidos apenas como forma de passatempo. Formação continuada, para fazer jus ao nome, requer ciclos de reflexão, prática, experimentação, leituras, erros e acertos, trocas com outras pessoas. Em outras palavras, não será o podcast por si só que levará o professor à sua formação continuada: essa seria uma visão determinística que estabeleceria uma relação de causa-efeito entre os podcasts e a formação docente que sabemos que não é possível.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Neste ponto convidamos você a observar a foto que antecede esta seção. Observou? Agora vamos então pensar juntos sobre como essa foto, que ilustra o teatro The Globe em Londres, relaciona-se com as ideias que apresentamos ao longo deste artigo.

Que tal usarmos o teatro The Globe como uma metáfora para explicar como podcasts podem ser vistos como potenciais catalisadores da aprendizagem? Afinal, ambos atraem público de todas as idades; ambos são antigos e novos ao mesmo tempo; ambos trazem um mundo de ideias e informações. As histórias são sempre diferentes, episódicas, mas todas elas nos falam de assuntos importantes nas relações interpessoais, no conhecimento do mundo, na ação neste mundo. A comunicação é predominantemente audiovisual em ambos, permitindo semioses múltiplas.

Neste ponto você pode estar se perguntando: mas como fica a questão da ubiquidade dos podcasts? E a possibilidade de manipulação por quem ouve (pausando, retomando, repetindo, onde e quando se quer?)? Como a metáfora poderia incorporar essas ideias?

Bem, admitimos que não podemos parar, retomar ou pausar uma peça durante sua exibição. Mas podemos fazer isso na nossa memória, na apropriação pessoal do que aprendemos no teatro. Pausando. Repetindo. Repensando. Analisando. Onde, quando, e como queremos. Enfim, podemos sempre que quisermos revisitar nosso entendimento do que vimos na peça e repensar o que esse entendimento nos ensina para as nossas vidas. Exatamente como quando ouvimos e revisitamos um podcast e aprendemos a melhorar a nossa prática pedagógica com ele.

REFERÊNCIA
• Silva, D. (2020). O papel do Podcast Papo de Educador na formação de
professores-ouvintes. Dissertação de mestrado. Disponível em
http://hdl.handle.net/11449/191689.

Denise Santos tem bacharelado e licenciatura em Português e Inglês pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, é mestre em educação pela University of Oklahoma e doutora em linguística aplicada pela University of Reading. É autora de vários artigos acadêmicos e livros, incluindo Bons Negócios: Português do Brasil para o mundo do trabalho (em coautoria com Gláucia V. Silva) e a coleção Estratégias (Como Ler, Como Falar, Como Ouvir e Como Escrever Melhor em Inglês), todos publicados pela Disal Editora. É cofundadora e Diretora de Conteúdos do Canal Professores Conectados. Mais informações em www.denisesantos.com.

Beatriz Berto tem bacharelado em Economia pela Universidade Cândido Mendes do Rio de Janeiro, MBA em Management, especialização em Língua Inglesa e especialização em Educação Infantil, realizados na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, e especialização em TEFL pela University of Reading. É diretora do Centro de Línguas Ann Arbor no Rio de Janeiro. É cofundadora e Diretora de Operações do Canal Professores Conectados. Mais informações em www.annarbor.com.br.

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