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Reflexões sobre o Ensino Híbrido

Reflexões sobre o Ensino Híbrido

Eu me lembro de ler sobre ensino híbrido alguns anos antes da pandemia e pensar: “ok, como colocá-lo em prática? Eu já faço isso em minhas aulas? Ensinar de forma híbrida é, simplesmente, usar tecnologias nas aulas?” Muitas dúvidas surgiam, especialmente, porque as pesquisas tendiam a mostrar sempre os resultados positivos das práticas on-line, como aponta Junqueira (2020).

O tempo passou e aqui estamos, num ponto em que conseguimos ver, com um pouco mais de clareza, o que, de fato, é o ensino híbrido, embora muitos ainda não compreendam o conceito e acabem misturando as concepções que foram surgindo ou ganhando mais força nos últimos tempos, como o ensino concomitante 1 , em que as escolas transmitem para quem está em casa a aula que está acontecendo em seu espaço, ao vivo e, assim, ambos os grupos estudam simultaneamente.

Por isso, definir ensino híbrido hoje parece uma tarefa ainda mais difícil do há alguns anos, quando as discussões em torno do uso de tecnologias na educação eram menos ‘questão de sobrevivência’. Autores como Bacich e Moran (2015, p. 45), com propriedade, mostram que o modelo combina “[…] vários espaços, tempos, atividades, metodologias, públicos”, funcionando como “[…] um ecossistema mais aberto e criativo”, que permite a aprendizagem por meio de processos que possuem organização, mas que também são abertos e não exigem tanta formalidade. Assim, podemos aprender com a ajuda de um(a) professor(a) tutor(a), com colegas, com pessoas que não conhecemos ou até sozinhos(as). E esse processo também pode acontecer de maneira intencional ou espontânea, a depender do contexto em questão.

Tudo isso, com a necessidade de aprender e ensinar de forma remota a partir de 2020, trouxe inúmeros desafios a professores de todo o mundo. Agora, após um tempo considerável nesse sistema, será que nos acostumamos? Que lição positiva há para a Educação? Quais são as preocupações atuais de professores e professoras quanto a um possível retorno ao ensino totalmente presencial, pós-vacinação contra a COVID-19? É necessário discutir e avaliar tudo isso para seguirmos adiante.

Trabalhar com essa “[…] união de elementos do presencial e do online” é, realmente, um desafio imenso (JUNQUEIRA, 2020, p. 38). Apesar de termos dado alguns passos, fato é que as dúvidas, o desconhecimento sobre o modelo de ensino híbrido, as desigualdades sociais enfrentadas pelas escolas em comunidades desprivilegiadas, as crenças em torno de sua aplicação, a falta de diálogo entre as instituições educacionais, enfim, tudo isso impõe mais questionamentos e, consequentemente, leva a equívocos em sua aplicação, tanto por parte de professores quanto por gestores.

Disponível em: https://bit.ly/3eJ7eGp. Acessado em: 12 maio, 2021.

Olhando para a sala de aula

Quando pensamos no ensino híbrido, além dos desafios, surgem possibilidades, no sentido de variar metodologias, estratégias, atividades, recursos e ferramentas utilizadas, estimular a autonomia dos estudantes, entre outros.

Como aliadas em todo o processo de aprendizagem, as metodologias ativas ganham mais espaço, trazendo mais oportunidades de pensar criticamente, interagir e de colocar professores em uma posição coadjuvante em relação aos aprendizes durante as atividades. É que, assim, estes precisam se dedicar em um nível maior às tarefas que precisam desenvolver, enquanto professores/tutores/orientadores dão assistência aos indivíduos e grupos.

Trabalhando on-line e presencialmente, é preciso entender bem os papéis que todos desempenham, assim como as tarefas pelas quais estão responsáveis. Essa responsabilidade mostra aos alunos e alunas que não basta mais apenas estarem presentes numa aula. Em vez disso, precisam pesquisar, discutir, avaliar e compartilhar o que aprendem com outros, que, então, terão novas funções no seu grupo. Por exemplo, em uma aula de inglês em que a professora, após introduzir e trabalhar o tópico, pediu aos alunos para pesquisarem sobre antirracismo para o próximo encontro, um grupo ficou responsável por trazer dados estatísticos sobre racismo no Brasil; outro, experiências coletadas de pessoas conhecidas; outro teve a tarefa de pesquisar atitudes antirracistas que precisamos ter; e assim por diante. Depois de discutirem essas informações de forma conjunta, o plano era que a turma criasse podcasts, um mural colaborativo, vídeos curtos, uma página em rede social ou outros trabalhos com base no tema, referenciando-se uns aos outros, para conscientizar pessoas sobre a importância de tratar todos com igualdade.

Como podemos observar, vários elementos estão envolvidos nessa prática, destacando-se a autonomia e o protagonismo dos(as) estudantes, em conjunto com a orientação da professora. Isso porque não há mais como ensinar de forma tradicional, ignorando o que acontece ao nosso redor, as possibilidades de troca entre e com os aprendizes ou trazendo para si toda a responsabilidade pelo conteúdo, pelos materiais e maneiras de aprender. Nessas interações, os(as) alunos(as) aprendem uns com os outros e nos ensinam muito.

Por fim, nunca é demais lembrar que nessa e em diversas atividades realizadas com o auxílio das tecnologias, o foco são a metodologia utilizada, os objetivos previamente pensados, a didática aplicada e a maneira de explorar juntos o conteúdo, não as ferramentas. Usá-las, em qualquer modalidade de ensino (seja on-line, presencial e híbrida, ou, ainda, síncrona e assíncrona), só fará sentido quando elas integrarem os propósitos previamente traçados pelos(as) designers de todo o processo: professores.

Referências

BACICH, Lilian; MORAN, José. Aprender e ensinar com foco na educação híbrida. Revista Pátio, n. 25, junho, 2015, p. 45-47. Disponível em: 39290c53-a374-c220-5ba5-6e6913decc56 (aprendizagemconectada.mt.gov.br). Acessado em: 12 maio 2021.

JUNQUEIRA, Eduardo S. A EAD, os desafios da educação híbrida e o futuro da educação. In: RIBEIRO, Ana Elisa; VECCHIO, Pollyanna de Mattos (Org.). Tecnologias Digitais e Escola: reflexões no projeto aula aberta durante a pandemia. 1. Ed. São Paulo: Parábola, 2020, p. 31-30.

About author

Joyce Fettermann é mestra e doutora em Cognição e Linguagem (UENF). É consultora acadêmica na Troika, onde atua, principalmente, em desenvolvimento profissional de professores e produção de conteúdos e materiais didáticos para a educação bilíngue. Trabalha também no ensino superior, ensinando inglês para fins acadêmicos em cursos de graduação e pós-graduação stricto-sensu.
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