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Mulheres: de musas a autoras

É quase impossível contar uma história interessante sem a presença marcante de mulheres no enredo. Tomemos a Odisseia, por exemplo, poema épico definidor da Literatura e Civilização Ocidentais, que conta a saga (inspirada por uma Musa) de um herói guiado constantemente pela sabedoria de uma deusa, tentado (mas também ajudado) por uma bruxa, aprisionado (e amado) por outra deusa, amparado por uma ninfa, socorrido (e desejado) por uma linda donzela, auxiliado por uma fiel serva, e sempre desejoso de voltar ao lar e reencontrar sua amada esposa. O que seria de Ulisses sem as (humanas ou imortais) mulheres? O que seria do mundo sem elas? Fossem elas símbolos de virtude, de vício e fraqueza, ou ainda de magia e monstruosidade, elas povoaram o imaginário coletivo da Antiguidade Clássica. Com a queda do Império Romano e a cristianização da Europa, a mulher (vista a partir de então como símbolo do pecado original) praticamente sumiu da ser tema e inspiração de escritores a
partir do século XII, com o surgimento do trovadorismo e suas canções de amigo, canções de amor e novelas de cavalaria. Foi com o advento da Renascença que a mulher deixou de ser apenas uma figura distante e idealizada para novamente se tornar a figura humana multifacetada. E embora tantas deusas, heroínas e vilãs tenham alcançado a fama e a glória, relativamente poucas mulheres ao longo da história se notabilizaram por escreverem, por serem as autoras, e não apenas personagens, de tantas histórias.

Todavia, os tempos são outros, e as mulheres se notabilizam cada vez mais como escritoras. O século XX, que testemunhou a conquista de grandes direitos democráticos das mulheres, como o direito ao voto, o divórcio, a pílula anticoncepcional, e uma presença cada vez maior no mercado de trabalho, também foi o século em que as mulheres ganharam maior espaço no mundo editorial, não apenas na literatura, como também na política, na filosofia, e em muitas outras áreas. E o século XXI despontou com fenômenos como Malala, a menina paquistanesa que ganhou o Prêmio Nobel da Paz aos 17 anos, ganhando o mundo com o seu livro Eu Sou Malala, e a britânica J. K. Rowling, autora da série Harry Potter, a primeira pessoa do mundo a se tornar uma bilionária a partir do seus livros.

Porque eu sou (e sempre fui) um fervoroso admirador da sensibilidade feminina, e porque acredito com Novalis que “a poesia é o autêntico real absoluto; quanto mais poético, mais verdadeiro“, presto aqui uma homenagem ao Dia Internacional das Mulheres falando um pouco de cinco poetisas de primeira grandeza, que são célebres nomes da literatura universal.

Uma delas é a inefável Florbela Espanca, a Poetisa do Amor, que veio ao mundo no fim do século XIX, em Ela escreveu uma poesia forte, sensual, de um lirismo irresistível. Seus sonetos estão entre os mais belos da língua portuguesa. Seus versos vão desde os mais singelos, como: “Digo pra mim / Quando ele passa: / Ave Maria / Cheia de graça!”, passando pelos fulminantes, como: “Mas não te invejo, Amor, essa indiferença, / Que viver neste mundo sem amar / É pior que ser cego de nascença!”, chegando aos apoteóticos, como: “Saudades! Sim… talvez… e por que não?… / Se o nosso sonho foi tão alto e forte / Que bem pensara vê-lo até à morte / Deslumbrar-me de luz o coração!“. Seu domínio absoluto sobre as palavras fez dela uma poetisa cada vez mais conhecida e amada Florbela foi uma mulher altiva, culta, politizada, destemida, irreverente. Em seus curtos 36 anos de vida, ela escandalizou a sociedade provinciana portuguesa: cursou faculdade de direito, casou-se três vezes, rompeu com a família. Mas a luta constante contra o preconceito, o peso dos fracassos amorosos e uma sucessão de abortos involuntários desenvolveram nela uma crescente depressão. Sofreu um trauma violento ao perder seu irmão (que era seu melhor amigo) em um acidente aéreo, trauma do qual ela nunca se recuperou: “Eu fui na vida a irmã dum só Irmão / E já não sou a irmã de ninguém mais!”. Quando recebeu o diagnóstico de edema

pulmonar, mergulhou ainda mais na depressão e finalmente se suicidou em 1930, tomando uma sobredose de barbitúricos: “Dona Morte dos dedos de veludo, / Fecha-me os olhos que já viram tudo! / Prende-me as asas que voaram tanto! / Vim de Moirama, sou filha de rei, / Má Fada me encantou e aqui fiquei / À tua espera,… quebra-me o encanto!”. Na verdade, ela sempre tivera uma certa tendência mórbida natural, como já denunciava este trecho de uma carta de 1920 ao seu segundo marido, trecho este que bem serviria de resposta aos moralistas “que têm a pretensão de explicar a nossa existência, como se não passássemos de desordens que precisam de esclarecimento”: “Já viste um artista sem desequilíbrio? Eu nunca vi… e é adorável a loucura quando é bela, e quando palpita numa rajada imensa de grandeza e arte!”. Sua loucura artística a aproximou do Sagrado e fez com que ela atingisse visões próprias da sabedoria oriental, como vemos nesta passagem de seu diário: “A vida tem a incoerência dum sonho. E quem sabe se realmente estaremos a dormir e a sonhar e acabaremos por despertar um dia?”. O legado de Florbela é forte. Superado o derradeiro escândalo (o suicídio) que Florbela causou a Portugal, hoje sua pátria se orgulha imensamente dela. No soneto “Vaidade”, ela havia declarado: “Sonho que sou a Poetisa eleita, / Aquela que diz tudo e tudo sabe / Que tem a inspiração pura e perfeita, / Que reúne num verso a imensidade! / Sonho que um verso meu tem claridade / Para encher todo o mundo!”. Seu sonho se realizou, embora ela não tenha vivido o suficiente para o testemunhar.

Assim como Florbela, as outras quatro poetisas, todas elas mulheres extraordinárias, entre tantas outras, são Musas que permanecem cada vez mais vivas através das gerações, continuando seu trabalho eterno de inspirar e humanizar homens e mulheres de todo o mundo. Confiemos nelas. Ouçamos o que elas têm a cantar! Elas compreendem a fundo o que Homero escreveu na Odisseia: “Se os deuses fiaram a ruína dos homens foi para proporcionar poemas à posteridade”. Estas poetisas indômitas transformaram suas próprias dores, lutas e fracassos em poemas cheios de esplendor e sabedoria, eternizando sua presença junto a nós através de suas obras! Lendo-as, muitas vezes somos quase que forçados a repetir os versos de Florbela Espanca: “Poeta igual a mim, ai quem me dera / Dizer o que tu dizes!… Quem soubera / Velar a minha Dor deste teu manto!”.

O Autor

Sergio Guerra é, antes de tudo, um leitor apaixonado. Professor de inglês, palestrante e consultor pedagógico, diplomado pela Rosemount High School em Minnesota, Estados Unidos, formado em Letras e pós-graduado em Literatura Inglesa pela USP, começou a ensinar inglês em 1986. Ele também lecionou inglês, português e redação em escolas de ensino médio e atuou como coordenador em cursos particulares de idiomas. Como tradutor, entre outros projetos, verteu o livro Duas Paixões de Fabrizio Fasano Jr. para o inglês, pela Ophicina Books. Há mais de 20 anos leciona inglês para executivos em São Paulo em empresas brasileiras e em multinacionais, além de atuar em eventos de aperfeiçoamento para professores de inglês e liderar grupos de estudo e clubes de leitura em inglês.

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